2. ENTREVISTA 5.6.13

ALEXANDRE PADILHA - "O DESEMPREGO NA EUROPA PODE ESTIMULAR OS MDICOS A VIREM PARA C"

Ministro diz que pagar salrios equivalentes aos que mdicos ganham l fora e despista sobre candidatura em So Paulo
por Claudio Dantas Sequeira 

PROFISSIONAIS ESTRANGEIROS - Padilha garante que far uma seleo criteriosa 

A sade do ministro da Sade, Alexandre Padilha, vai bem, mas sua situao poltica inspira cuidados e embala especulaes. Celebrado nas redes sociais, onde despacha demandas a secretrios e fala de dieta e exerccios, no mundo real o petista tem sido criticado pela ideia de trazer mdicos estrangeiros para atuarem nos rinces do Pas. No bastasse isso, o risco de uma nova epidemia da gripe H1N1 pode arranhar sua imagem no momento em que se cogita fortemente no meio poltico sua candidatura ao governo de So Paulo em 2014  proposta defendida nos bastidores pelo ex-presidente Lula. 

 Em entrevista exclusiva  ISTO, o infectologista que por anos liderou um ncleo de pesquisa da USP no interior do Par defende a criao de vagas para mdicos espanhis, portugueses e cubanos e garante que haver uma seleo criteriosa e incentivos justos para eles virem ao Brasil. Queremos oferecer salrios compatveis. Na Espanha, um mdico da ateno bsica recebe trs mil euros, afirma. Sobre a pr-candidatura, Padilha mantm cautela. Diz que nunca conversou sobre eleies com Lula ou com a presidenta Dilma Rousseff e joga a bola para outro nome cotado para a disputa: O candidato natural do PT ao governo de So Paulo  o ministro Aloizio Mercadante.

"O ministrio est vigilante com a gripe H1N1, mas preocupado  com o inverno. Estamos reforando o uso do Tamiflu"

"O ex-presidente Lula nunca tratou de candidatura ao governo de So Paulo comigo. Meu foco est no Ministrio da Sade"

Isto - H muita resistncia  vinda de mdicos estrangeiros, ainda que seja para atuarem no interior do Pas. Por que insistir nisso?

Alexandre Padilha - Porque no h sade sem mdicos. Constatamos uma carncia de atendimento no s no interior ou nas regies Norte e Nordeste, mas tambm nas periferias das cidades. Isso desmonta a tese que se consolidou no Brasil de que temos mdicos demais. No  verdade. Nosso pas est muito atrs do resto do mundo.

Isto - Quanto atrs?

Alexandre Padilha - Temos uma mdia de 1,9 mdico por mil habitantes. Essa cifra est abaixo da de toda a Amrica Latina e distante da mdia de pases europeus, como Inglaterra, Espanha ou Portugal, que buscam oferecer um sistema de sade universal e gratuito. A Argentina tem 3,2 profissionais de sade por mil habitantes, enquanto Espanha e Portugal tm quase quatro. A Inglaterra, cujo sistema de sade  uma referncia mundial, tem mdia de 2,7 mdicos por mil habitantes e quer chegar a 3,2 em 2020.

Isto - Mas no h outra forma de atender a essa demanda?

Alexandre Padilha - Claro que sim, mas so iniciativas complementares. Um pas do tamanho do Brasil no pode ter uma estratgia apenas. Desde a minha posse em 2011, eu coloquei esse problema. Fizemos um seminrio internacional, temos debatido o tema com a comunidade acadmica, as entidades mdicas, os governos estaduais. Conclumos que  preciso haver uma mudana cultural da Escola Mdica e estamos estimulando essa mudana.

Isto - De que maneira?

Alexandre Padilha - Quem tem acesso a uma faculdade de medicina nos grandes centros urbanos no tem estmulo para ir para o interior ou para a periferia. Ento o primeiro passo  levarmos a faculdade para a periferia. Assim, o aluno que estuda ali, que conhece aquela realidade mais do que ningum, tem mais chances de se fixar naquela regio e aplica ali seus conhecimentos. Em 2011, fizemos uma parceria com o Ministrio da Educao e a Faculdade Santa Marcelina para abrir um curso de medicina na zona leste de So Paulo. Disponibilizamos para esse aluno o crdito do Fies, e se ele, uma vez formado, for trabalhar para o SUS nas reas em que h demanda, poder abater sua dvida e ainda receber um bom salrio. Em geral, ele parcela o Fies em dez anos. Se trabalhar dez anos para o SUS, desconta a dvida e no paga nada. Se fizer a especializao em reas consideradas de interesse do governo, como pediatria, ele ganha a bolsa de formao da residncia e tambm no paga nada do Fies.

Isto - Isso est sendo feito em outros lugares?

Alexandre Padilha - Sim, j abrimos mais de duas mil vagas de medicina com foco no interior e nas regies metropolitanas. Podemos chegar a oito mil. Criamos o Provab, que tem como principal objetivo oferecer ao mdico recm-formado a chance de passar um ano numa unidade de sade da periferia ou do interior, com salrio de R$ 8 mil e acompanhamento da universidade. Se o seu desempenho for aprovado e ele for bem avaliado pela comunidade, ganha 10% de pontuao na prova de residncia. No primeiro ano, apenas 380 quiseram participar. Este ano, j foram quatro mil.  o maior programa desse tipo na histria em nosso pas. Alm de preenchermos esse vazio, estamos formando mdicos melhores, mais humanos e com mais experincia da realidade brasileira.

Isto - De quanto  o dficit de mdicos nessas regies?

Alexandre Padilha - Os prefeitos nos entregaram um estudo que apontou dficit de 13 mil profissionais. Alis, quem comeou com essa histria de mdicos estrangeiros foram os prefeitos. Logo depois da posse, eles pediram  presidenta Dilma que considerasse o problema. Veja, j suprimos quatro mil vagas, mas restam nove mil. Tambm estamos estimulando a criao de carreiras regionais nos Estados, de forma que o mdico que entra na ateno bsica v primeiro para um municpio distante, o que lhe rende pontuao para depois ir para um posto melhor. Hoje h mais de 300 municpios que no tm sequer um mdico, mais de mil municpios que possuem menos de um mdico por mil habitantes. Os prefeitos fazem leilo de mdicos.

Isto - Mas todas essas iniciativas demandam tempo. A formao de um mdico leva seis, sete anos...

Alexandre Padilha - Exatamente por isso precisamos de uma soluo de emergncia. Vislumbramos uma oportunidade muito clara e concreta, por causa da crise econmica na Europa. O desemprego na Europa pode ser um estmulo para os mdicos virem para c. Alm disso, queremos pagar salrios compatveis aos que eles ganham l. Na Espanha, um mdico de ateno bsica ganha trs mil euros. Alm do salrio, o perodo de trabalho aqui poderia significar formas de promoo na carreira dele em seu pas. A ideia  que venham para atuar por um perodo especfico e apenas em regies e reas predefinidas. 

Isto - J h algum acordo? Com Cuba, por exemplo?

Alexandre Padilha - Nossa prioridade sempre foi Espanha e Portugal. Mas no h nenhum preconceito contra os cubanos. No pode haver ideologizao desse debate. Queremos mdicos preparados e haver uma avaliao.  preciso garantir que tenham boa formao e habilidade no portugus.

Isto - Estamos vivendo um novo surto da gripe H1N1, a gripe suna, com foco principal em So Paulo, onde j foram confirmadas seis mortes. Com o inverno, a situao deve piorar. O que o sr. pretende fazer?

Alexandre Padilha - O ministrio est vigilante com a gripe H1N1, mas preocupado com o inverno que comea. Conseguimos recuperar a meta nacional de vacinao. O Brasil  um dos poucos pases do mundo que ofertam a vacina para todos os grupos prioritrios recomendados pela OMS, e incorporamos dois novos grupos. Agora estamos reforando o uso precoce do Tamiflu. Distribumos em todo o Pas.

Isto - Mas muita gente tem reclamado por no conseguir encontrar o medicamento.

Alexandre Padilha - Em So Paulo j h mais de 200 pontos de distribuio. Estamos com um estoque nacional suficiente para todo o Pas e temos reforado com Estados e municpios para que o Tamiflu esteja em todas as prateleiras. Alm disso, h um esforo para mudar a cultura que havia de no prescrio do Tamiflu, porque se pensava que ele poderia gerar resistncia. A poltica agora  reforar o uso precoce. Suspeitamos que um dos fatores para esses bitos em So Paulo foi o uso tardio do Tamiflu, nas primeiras 48 horas. Tem que ser utilizado independentemente da confirmao laboratorial ou do surgimento de sintomas mais graves. 

Isto - O sr. acha que uma epidemia poderia contaminar sua candidatura para o governo do Estado em 2014?

Alexandre Padilha - Esse debate no existe. Estou no Ministrio da Sade, muito honrado com a misso, e s penso exclusivamente em melhorar a sade da populao. A preocupao que temos este ano  a mesma dos anos anteriores. H a percepo de uma migrao dos casos, por isso a forte parceria com o governo do Estado. H uma parceria forte com o secretrio de Sade de So Paulo. A poltica, muito menos o debate eleitoral, no entra na parceria que estabelecemos com o governador Geraldo Alckmin. Como tambm no entra entre o governo e a prefeitura paulista.

Isto - Comenta-se que seu nome  o preferido do ex-presidente Lula.

Alexandre Padilha - O ex-presidente Lula nunca tratou de candidatura ao governo de So Paulo comigo. A presidenta Dilma s trata comigo de temas da sade, me cobra o tempo todo. Isso faz com que o meu foco esteja no Ministrio da Sade. 

Isto - Nas redes sociais, j h um movimento em apoio a sua candidatura.

Alexandre Padilha - Neste momento s penso no Ministrio da Sade. Os perfis, os comentrios, as pessoas falam.  lgico que a gente ouve isso, mas entra por um ouvido e sai pelo outro.

Isto - Almeja algum cargo mais poltico num segundo mandato da presidenta Dilma?

Alexandre Padilha - Quando assumi a Secretaria de Relaes Institucionais, me falavam que eu era muito tcnico para assumir um cargo poltico. Quando vim para o Ministrio da Sade, disseram que eu era muito poltico para assumir um cargo tcnico. Quero dizer que estou muito animado aqui, e meu compromisso  ir at o momento que ela achar que devo ficar aqui.

Isto - Como ministro o sr. tem mantido contato frequente com Aloizio Mercadante. Conversaram sobre 2014?

Alexandre Padilha - Nada sobre eleio. No existe a possibilidade de sermos rivais em So Paulo. O Aloizio  o candidato natural ao governo de So Paulo. Sempre achei isso e continuo achando, que ele  o candidato natural do PT ao governo do Estado de So Paulo.
